Ana Virgínia Santiago
Reencontros da Faxineira de Ilusões
Ana Virgínia Santiago

Crédito: Divulgação

Já era entardecer quando ela reapareceu diante de mim rompendo o elo de minha solitude com o meu coração que desafiava o meu momento triste. 

Com cicatrizes na alma e no corpo, mesmo assim, ela chegou para amparar a minha tristeza tão teimosa e dilacerante e me enterneceu.

Conversamos e aprendemos uma com a outra. Ela escutando e ouvindo o meu coração. Falei de minhas dores, de minhas dúvidas sobre decisões se acertadas ou não. Falei de minhas escolhas, de minhas quimeras adormecidas, do torpor que estava querendo  invadir a  minha alma.

Foi então que ela , mais uma vez, me ensinou a sonhar...       

Com a mesma expressão de quem tem visões, categórica, ela me falou que aguardava a sua hora de retornar ao mundo das fadas, duendes, gnomos e anjos pois acreditava na alquimia dos seres mágicos, incutindo em meus pensamentos a necessidade de  dar um tempo para mim e também voar.

Falou de suas caminhadas, dos andares que a levaram para longe conhecendo outras gentes, outros contares, outras culturas. Falou de tudo que viu e viveu acendendo em mim a vontade de sonhar  e criar.

Como mudou! O que aconteceu com a sua vida para mostrar na face e nos cabelos encanecidos a sua nova história?

O que aconteceu?!

- Um dia conheci essa Mulher que Sonhava e como personagem do mundo drummon(d)iano, em momentos da vida, apenas espreitava pela janela em total solidão.

Ela sabia o que queria e acreditava na felicidade. Passeava pelas estrelas todas as vezes que precisava sonhar e projetar na razão as suas idéias paridas da e na emoção e transformá-las mais adiante em prosa e versos.

Tinha caminhos a seguir, atalhos a desbravar, paradas permitidas ao descansar ,contudo guardava contida   e bem protegida em sua essência a certeza de construir no futuro o seu mais sublime querer.

A mim ela ensinou a obrigação de enxergar e pensar em minha vida, abrir gavetas limpando os cacos guardados e catar letrinhas, formando palavras, criando enunciados e falando meus recados de vida e sentimentos.

Foram passando os anos e sempre que a encontrava tinha a constatação  de que a Mulher que Sonhava acolhia dentro de si as alegrias que brotavam e chegavam pela natural forma  de ser da vida, sempre acalentando a esperança. E como nos ensinava!

Ela me permitia questionar porque, mesmo acreditando em tudo que tinha, ela sempre  deparava com o esquecimento do olhar, do ver e do enxergar dentro dos olhos de outras pessoas que com ela convivam e ainda embalava  a esperança  em sua  existência.

Desde que a conheci Ela se tornou a minha companheira. Nutrimos os mesmos gostos, as mesmas aspirações ,os mesmos desejos  que fazem das idéias da Faxineira de Ilusões a persistência para existir apesar da alma macerada.

Um dia ela se foi. Por um tempo essa Mulher  desapareceu ficando longe da aldeia , ausente de mim porém  presente nas lacunas impostas pelo tempo que não semeou sentimentos e no que me ensinou a lidar com o esquecimento de mágoas, muitas mágoas  que um dia passam e se transformam em couraça e em grito de alerta para nem sempre  acreditar, não mais viver num mundo do faz de conta.

A mim deixou um turbilhão de carências porque embalava as minhas idéias e estimulava a minha fome de agarrar as belezas que me fugiam antevendo vitórias nas quimeras que eu me perdia. E me perdi sem a presença da Mulher que Sonhava. E senti falta de sua inspiração. Sempre relembrava essa companheira de confidências e inspiração que me fez muita falta e a quem a escutava.

Agora Ela voltou!

Conversamos e a ouvi explicar as suas amarguras justificando as mudanças e a couraça que agora a protegia.

Agora entendo o perdido brilho em seu olhar, o adormecido sorriso aberto, as desencantadas mãos  que eram doação  agora mãos em conchas traduzindo orações...

Já era entardecer quando ela reapareceu diante de mim rompendo o elo de minha solitude com o meu coração que desafiava  o meu momento triste. 

Agora está aqui, imóvel, olhando para o horizonte (o que lhe tiraram, Mulher que Sonhava?), vendo diferenças com o vazio na paisagem que lhe encantava e lhe nutria de poesia no por do sol.

Agora está aqui e eu a vejo impassível em sua dor (o que a fez tão ressentida?), silenciosa e serena numa esplêndida fase de maturação  que deixa sua essência diferente do que foi, olhando à sua volta como se buscasse algo , com a saudade dos encantos de outras histórias já vividas e com o coração em aflição pelos desencontros que a colocaram na contramão da vida.

Mesmo assim nunca conheci um ser humano silencioso dizer ao meu coração tantas palavras, tantas verdades sem um movimento sequer de lábios nem gestos de mãos e corpo, apenas com o vago olhar de quem foi usurpado do seu maior tesouro.

Já é noite quando ela se despede de mim.


Ana Virgínia Santiago

Crédito: Divulgação

 
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