Que Tempo é esse, meu Deus?
Faz uma semana que estamos recebendo notícias de grandes estrelas da terra que se tornaram estrelas no céu. Imensa dor de famílias, como cem mil outras, mas com o agravante desses serem personalidades de impacto coletivo por seus feitos.
Pessoas pretas que conseguiram, como poucos, se destacarem e trazerem à luz a luta contra o racismo, a desigualdade racial e social.
Nós baianos bem sabemos o que é isso. Como cantou Caymmi “... a terra do branco mulato, a terra do preto doutor...”, assim é São Salvador da Bahia. Minha terra de nascimento, coração, cultura e muito mais.
É quase impossível com esse estado de coisas conseguirmos manter o moral em alta. A cada notícia de partida, uma porrada certeira nos já abalados e balançados medo e auto-estima. Uma dor imensa pelo desaparecimento da pessoa e igualmente intensa dor pelo ponto final posto na generosidade, doação, criatividade e produção de arte daquele que se vai.
Senti isso quando soube da partida de Jorge, o Portugal. Professor que sempre tive o orgulho de ter sido aluna e ser colega; exemplo de preto que lutou por sua tribo, poeta, letrista, que estimulou tantos iguais a não desistirem de seus sonhos e ainda por cima, homem do candomblé, que honrou sua cultura e tradições.
No dia seguinte partiu Jaime Sodré amigo do Jorge, que dado o susto da partida precoce daquele, entregou os pontos e seguiu o amigo.
Igualmente professor, meu colega, profundo estudioso da história da cultura africana, PhD – título para poucos, quem dirá preto baiano. Jaime deixou de luto toda a arte preta, os parceiros de composições, além do povo do santo de Candomblé Angola do Terreiro Tanuri Nunçara, onde era Tata Xicarangoma. Não por acaso Jaime e Jorge eram parceiros em canções que nos deixaram como legado.
Por último, no sábado, partiu mais uma baiana, a soteropolitana Chica Xavier, atriz e Mãe-de-santo, sacerdotisa do terreiro de Umbanda “Irmandade do cercado do Boiadeiro”. Não a tôa o vocábulo que dá nome à religião - Umbanda significa medicina, a arte das plantas, paus e ervas, para curar doentes, na língua Kimbundu, que é falada no Ndongo-Angola e muito usada aqui na diáspora, principalmente nos Terreiros Angola-Congo.
Sendo a sua sacerdotisa aquela que conhece os segredos e os poderes das plantas que curam, ela, a Chica Xavier nossa conhecida atriz era para algumas centenas de pessoas, suas orientandas e perfilhadas, muito mais importante e necessária nesse papel de zeladora espiritual.
E, nós, pobres mortais baianos pretos, como ficamos com tantas partidas?
Pessoalmente me sinto órfã dessas três referências de resistência ao racismo estrutural pela religiosidade, profissionalismo, sabedoria, poesia, arte e cura. Exemplos de como resistir oferecendo a bondade, beleza, não violência, retidão, caráter, solidariedade e apropriação dos signos sociais reconhecidos e respeitados, dentre outros.
Hoje, o dia em que comemoramos o Nkisi Kitembo (Sr. Tempo), o governador do tempo e do espaço, que observa e acompanha o cumprimento do Karma de todos nós, aquele que determina o início e o fim de tudo, ao senhor Kitembo pedimos misericórdia por todos nós e a humanidade inteira e licença para ficarmos entristecidos com a partida dos nossos iguais, enquanto cantamos: “... a dor da gente é dor de menino acanhado, menino-bezerro pisado no curral do mundo a penar...”. A massa- música de Raimundo Sodré, com letra de Jorge Portugal.
A autora Elza Ramos é publicitária, pedagoga e iyalorixá