Oiá, a mãe dos nove filhos

Elza Ramos
Divulgação

Em dia chuvoso de quarta-feira, lá pelos idos de 1987, estando eu triste e cansada, resolvi ir ao Terreiro pedir a benção a minha “mãe de santo”.

Nesse tempo eu era Ndumbe (não iniciada), mas sentada ao chão, com a cabeça no colo de D. Mãezinha (apelido de Maria Angélica (nome civil) e Dilewi (dijina de iniciação)), encontrava a paz.

Após ouvir os meus lamentos, entrecortados pelos soluços do choro em desabafo ela disse: - Filha, pra tudo existe em jeito. Calma. Vou lhe contar um Itan (contos africanos que ao final tem sempre uma lição), contado pelos mais velhos...

...Conta-se que Oiá não podia conceber, mas desejava ardentemente ter filhos.

Como última esperança, após tentar de tudo, ela foi consultar um Babalaô que após fazer a leitura dos oráculos indicou a Oiá, que se fizesse um ebó apontado por Ifá, teria sucesso em seu intento, na certa.

Ela teria que ofertar muitos búzios, roupas coloridas e um carneiro (um agutã). Com muita fé e devoção Oiá fez o sacrifício, aguardou e confiou.

Como resultado de sua fé, desejo e merecimento, Oiá teve nove filhos.

A partir daí, ao passar pelas ruas indo ao mercado vender o azeite de dendê, as pessoas diziam: “Lá vai Iansã”. Iansã quer dizer mãe nove vezes.

A partir do dia em que sacrificou o carneiro e por ter o seu desejo de ser mãe atendido, ela não comeu mais carneiro, em sinal de respeito. E passou também a ser chamada de Iansã- a mãe de nove filhos...

Após isso D. Mãezinha sabiamente me disse: Viu aí? Oiá queria um filho. Deu a luz nove!

Consultar e escutar o saber do mais velho, ter fé, confiança e merecimento, deram a ela nove vezes o que queria. Tenha paciência e pense nessa lição.

Claro que eu saí de lá do Terreiro aliviada, recarregada em forças e me sentindo acolhida, tanto que em início de 1989, fui iniciada por suas mãos abençoadas.

Fonte: Mam’etu Dilewi do Ilê Axé Matamba Dilewi e Mitologia dos Orixás – Reginaldo Prandi.

A autora Elza Ramos é publicitária, pedagoga e iyalorixá