Um olhar sobre o fracasso escolar como ratificador da exclusão social na EJA

Elza Ramos
Divulgação

(Foi escrito e publicado em Julho de 2006. Hoje está atual e muito pior!)

O fracasso escolar surgiu há sessenta anos, a partir da democratização das vagas que recebe a classe trabalhadora e que, por não promover real transformação do sistema escolar, promove o fracasso. O fim do regime militar não imprimiu mudança no regime capitalista e nas relações de poder e a Nova República também não garantiu transformações no sistema escolar.     Impossível ter-se educação democrática sem o fim do analfabetismo e da exclusão social das classes populares.

Como os processos de gestão ainda se encontram em fase confusa de ajustes ideológicos, e a ele estão ligados os valores sociais, a concepção de cidadania e do saber que  é promovido para este exercício de transformação da escola, não podemos apartar a gestão democrática do processo educativo. “ A escola educa e forma o cidadão por suas relações pedagógicas” (FONSECA, 1996 p.83). Ao evadir da escola o trabalhador retorna à alienação que, muitas vezes, está ligada à violência. E o estado da Bahia possui o maior número de municípios com os piores índices de exclusão.

A reflexão a respeito da influência da gestão no fracasso escolar da EJA e suas conseqüências para a exclusão social demonstram que a gestão democrática das instituições públicas, prevista pela Constituição de 1988 em seu 12º Artigo, ainda mantém todos os ranços de autoritarismo, herança da ditadura militar e da presença do discurso liberal de sobrevivência dos mais aptos, dos mais capazes, nas séries regulares do ensino fundamental. Na Educação de Jovens e Adultos encontramos uma gestão ainda mais confusa e ratificadora da chamada seleção natural, que também acontece (ia?) na vida social.

Após realizar pesquisa em duas das maiores escolas do centro de Ilhéus foi constatado que os alunos adultos retornam à escola porque almejam aprender mais e melhorar no trabalho, mas esbarram no pouco espaço para serem ouvidos e em aulas descontextualizadas, que se juntando ao cansaço acabam, 60% dos casos, conduzindo-os à evasão. E o que é pior, dos 40% que permanecem, em torno de 25% são conservados na mesma série.

O fracasso da educação é responsabilidade de todos e por isso temos presenciado, nos últimos anos, uma corrida para se instituir a gestão democrática nas escolas de todo o Brasil, como busca do sucesso, pela ação coletiva.  No entanto com a adesão dos governos às políticas neoliberais, as desigualdades sociais foram ampliadas, os movimentos populares foram desmobilizados e o projeto de transformação da educação pública se perdeu politicamente.

O fracasso escolar na EJA ainda é apontado como resultante de problemas psíquico, técnico, institucional ou político separadamente. Isso porque, em sua maioria, professores não são formados para escolarizar os adultos pobres numa escola que continua seletiva, excludente e que divulga a “... ´democratização da escola` pela simples passagem dos excluídos do direito de formação escolar à categoria de incluídos nos prédios escolares” (PATTO, 2004).

Paulo Freire aponta como paradigma da educação popular: educação para a liberdade; que produza conhecimento; recuse o autoritarismo; a manipulação e a ideologização que surge ao criar hierarquias rígidas entre o professor (que sabe) e o aluno (que precisa aprender). “Educação como ato de diálogo no descobrimento rigoroso da razão de ser das coisas...”, ciência aberta às necessidades populares com planejamento comunitário e participativo (GADOTTI, 2000).

Na atualidade é exigido que a educação seja sustentável, que leve a todos pensarem globalmente, que eduque sentimentos, ensine a identidade terrena e forme o ser para a consciência planetária; ofereça uma formação para a compreensão, simplicidade e quietude, sem esquecer que a cultura da sustentabilidade tem como via principal a justiça. Neste caso, a justiça social.

A pesquisa nos apontou que os alunos retornam várias vezes para a escola, mas acabam por desistir por falta do envolvimento de todos no sentido de perceber a importância de incluirmos socialmente estes trabalhadores, a quem somos devedores somente pelo fato de sermos brasileiros e termos tido a oportunidade que a eles foi negada.

Os trabalhadores que não tiveram oportunidades de acesso à escola e aqueles que entraram e retornaram várias vezes, estão hoje colocados em escolas que não foram pensadas para eles, não foram estruturadas para recebê-los. Por outro lado não têm gestão concebida para mantê-los como adultos pensantes, partícipes das suas comunidades, com cultura, pensares e experiências que podem ser utilizadas para a construção do saber formal.

O aluno da EJA ainda é, hoje, um invisível que ocupa espaço destinado aos insistentes e que, em mais de 60% das vezes, acaba por evadir-se e retornar à margem da sociedade por falta de escolarização que o possibilite o acesso ao mercado de trabalho formal e por conseqüência viva na informalidade e, não poucas vezes, seja partícipe da violência.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BASTOS, João Baptista. Gestão democrática da educação: as práticas administrativas compartilhadas. In: Gestão Democrática. Rio de Janeiro: DP &A/SEPE, 2000.

FONSECA, Dirce Mendes da. Gestão e educação. In: COVRE, Maria de Lourdes Manzini (Org.). Administração Educacional: um compromisso democrático. Goiânia: Alternativa, 1996.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 20. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

GADOTTI, Moacir; ROMÃO, José Eustáquio. Educação de Jovens e Adultos: Teoria, prática e proposta. 2. ed.  São Paulo: Cortez, 2000.

PATTO, Maria Helena et al. O estado da arte da pesquisa sobre o fracasso escolar (1991-2002): um estudo introdutório. Educação e Pesquisa. Vol.30 nº I. São Paulo: USP.2004.

A autora Elza Ramos é publicitária, pedagoga e iyalorixá