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Bancos! Ah, os bancos!
Walmir Rosário

Crédito: Divulgação

Que os bancos só emprestam dinheiro aos clientes que não precisam, todos sabem, mas o que passamos a saber a cada dia, é que os bancos somente querem cobrar taxas como estabelecimentos bancários, porém não admitem prestar os serviços a que devem entregar e já cobram por isso. É muito estanho, mas é verdade e é mais uma jabuticaba brasileira.

Pouco vou a uma agência bancária e só me dirijo a esses locais em última instância. Também não é pra menos: tenho que transpor uma série de barreiras para conseguir ultrapassar a porta giratória, após provar que não ando mal-intencionado e desarmado. Mesmo assim sou visto com desconfiança pelos estagiários e empregados, como se fosse ali apenas para importuná-los.

Ora, se um consumidor qualquer procura um banco é porque pretende fazer qualquer tipo de negócio que o banco preste: tomar empréstimos, sacar o seu dinheiro depositado com antecedência, ou, quem sabe, emprestar dinheiro ao banco. Alguns, até, se propõem a emprestar dinheiro aos bancos por juros ínfimos, mesmo sabendo que se precisar vai ter que pagar 10 vezes mais por isso. Mas como tem gente que tem gosto pra tudo…

Seja lá qual for sua intenção, não será bem-visto até que o gerente ou outro funcionário graduado lhe saúde com cara de bons amigos e, quem sabe lhe dê um abraço afetuoso e espalhafatoso para que todos conheçam a sua importância. Caso não seja desse quilate, será desprezado pelo caixa nem tão rápido, que lhe despacha um aviso deste tipo: “Você não tem o perfil para esse serviço”.

Pois é, se um reles equipamento que fica estacionado no lado de fora do banco não lhe aceita, por qual motivo os funcionários do banco iriam lhe aceitar lá dentro, dar um abraço apertado e servi-lhe um cafezinho? Seu perfil é o de fila de correspondente bancário e como tal você deverá se comportar. Hoje, você não é aceito na Caixa Econômica Federal nem mesmo para abrir uma conta poupança. Ah se Itamar Franco ainda fosse vivo e presidente do Brasil...

Um banco múltiplo, como é o caso de 99,99% dos bancos brasileiros, oferecem serviços como depósitos e saques nas contas-correntes e poupanças que mantêm, mas não querem que os clientes de suas contas entrem em suas agências. Estranho, muito estranho esse comportamento de uma empresa que quer o cliente longe dela, mesmo que cobre taxas cada vez mais caras para isso.

Atualmente é muito comum entrarmos na antessala de uma agência bancária – local onde ficam as máquinas chamadas caixas eletrônicas ou rápidas, apesar das grandes filas – e encontrarmos pessoas vestidas com um casaco com um letreiro às costas “Posso ajudar”. Engana-se que acredita na ajuda, a verdadeira função delas é fazer com que a agência se livre daquele cliente ou simples consumidor e procure outro lugar qualquer para pagar suas contas.

Parece mentira, mas é verdade. A cada conta – água, energia, cartão de crédito ou outra compra qualquer – que um consumidor paga, os estabelecimentos bancários recebem determinado valor sobre o recebimento. Mas não querem que esses serviços sejam prestados em suas agências. E isso à vista e beneplácito das autoridades do Banco Central e outras esferas governamentais.

Para isso, contratam outra empresa, denominada correspondente bancário para prestar esse serviço em seu nome. Nessa terceirização, claro que os bancos ficam com a parte do leão, destinando aos seus correspondentes bancários apenas uma pequena parte do que recebem para prestar esse serviço. Se exime dele mesmo (que contratou) prestar o serviço e repassa para outro, se livrando de diversas obrigações inerentes, a exemplo da contratação de bancários, equipamentos e segurança.

No caso dos correspondentes bancários da Caixa Econômica Federal os problemas são mais agravados, com as loterias, recebimento de benefício de prestação continuada (bolsa-família, PIS, dentre outros), além dos pagamentos e saques da própria Caixa e do Banco do Brasil. A cada dia são registrados tumultos nesses locais, principalmente nas pequenas cidades onde não têm ou são poucas as agências bancárias.

E no Brasil de hoje o item segurança é o que mais causa preocupação, pois o chamado correspondente bancário tem manter sob sua custódia o dinheiro oriundo das transações decorrentes. São os terceirizados obrigados a manter nos seus estabelecimentos uma grande soma em dinheiro para pagar quem vem em busca de saques e receber vultosas somas dos que pagam suas contas.

Para o transporte de valores, os estabelecimentos bancários utilizam carros-fortes, grandes e treinadas equipes de segurança, além do apoio do sistema de segurança do Estado. Já os pequenos correspondentes bancários utilizam seus próprios funcionários, sem qualquer aparato, para transportar os valores até os estabelecimentos bancários a quem servem.

Não é preciso dizer que a parte mais fraca sofre com a bandidagem solta e armada nas ruas, planejando assaltos diários, tanto aos correspondentes bancários quanto a outras empresas que trabalham com valores, a exemplo dos supermercados. A todo o dia temos notícias dos assaltos aos funcionários transportando esses valores, que acontecem na saída de suas empresas ou chegada aos bancos.

O que mais causa espécie é que os bancos oficiais, criados para fomentar o desenvolvimento e atender aos que não têm o perfil desejado pelos bancos particulares, são os que causam mais dificuldades para o cliente. É muito comum ouvir nos bancos oficiais que algumas pessoas não são clientes, apenas simples usuários, mesmo que eles recebam seus salários por aquele estabelecimento.

Quosque tandem abutere, bancos, patientia nostra, parodiando o cônsul romano Marcos Tulio Cicero.

O autor Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.


Walmir Rosário

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