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O Castigo de Clemente
Júlia Virgínia

Crédito: Divulgação

Conhecer a cultura e os hábitos de um país ultrapassa os muros das universidades com suas aulas de “língua e cultura”. É preciso se despir de seus conceitos e olhar o novo contexto com o respeito daquele que nunca vai entender completamente todo o sentido, porque mesmo traduzindo todo o texto, existe sempre o risco de alguns conceitos passarem por uma via paralela. 

Em 2009, a convite de uma colega francesa fui passar um final de semana com a sua família em uma pequena cidade. Na ocasião conheci uma menininha de 6 anos, cheia de curiosidade sobre o Brasil como toda criança de fora, Clemente.   

Já era do meu conhecimento que existe uma certa reprovação francesa quanto à ideia d’enfant roi (de criança rei). O estudo sobre esse conceito é sério e complexo, mas resumidamente trata das crianças que são supervalorizadas por suas famílias e posicionadas como O centro de todas atenções, resultando adultos que nunca questionam suas atitudes, muito individualistas e com problemas graves de caráter.

Clemente não correspondia nem de longe ao perfil d’enfant roi e desta forma não houve estranhamento ao notar que a menina seguia algumas regras em casa. Ela não era a rainha daquele lugar, era uma menina de 6 anos e entendia que haviam limites e deveres para ela, como para todos da casa.  

A grande intriga e ponto alto do final de semana foi uma repressão feita pela mãe. A frase foi: - Clemente, se você não se comportar não vai à escola!

O castigo de Clemente ficou na minha cabeça algum tempo como um desaforo que a gente leva para casa quietinho. Quando é que nós tornamos a escola um castigo?

Obvio que para mim era muito evidente as desvantagens em ficar em casa quando se tem 6 anos, o que chamou minha atenção foi a ideia de que ficar em casa era uma retaliação para ela. O castigo era NÃO ir à escola e ser privada do convívio com outras pessoas, deixar de aprender algo novo naquele dia, não avançar, não ser testado, não estar exposto a uma situação diferente e enriquecedora.

Certamente a ingenuidade da menina não lhe permitia perceber que esse castigo nunca seria aplicado. Na França toda ausência na escola é justificada, e precisa ser bem perdoável, porque as instituições de ensino cobram satisfação dos tutores. Mas deixaremos de lado qualquer tipo de comparação sobre educação, modelo de ensino, de família, etc. Quando é que nós sugerimos negativamente a uma criança que ir à escola é uma situação ruim? Qual é o tom ou a palavra que tira a graça do ritual sagrado de ir à escola?

Talvez quando a criança diz que está doente para não ir à aula com um tom de piada e não consideramos grave. Talvez quando o “vai dormir que amanhã tem aula” seja para finalizar a brincadeira. Talvez quando falamos em feriado como um motivo animador por não haver aula. Talvez quando as escolas não disponham de uma estrutura básica. Talvez quando participamos menos das iniciativas dos professores. Talvez quando os professores anunciem uma greve, e ignoremos os motivos. Talvez quando não demonstremos interesse na educação como um projeto importante de vida...

Triste é saber que muita criança e adolescente tem (e ainda vai ter) o castigo de Clemente aplicado.

A autora Júlia Virgínia é formada em Rádio e TV e tem mestrado em Cinema 


Júlia Virgínia

Crédito: Divulgação

 
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