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Um fato da vida!
Júlia Virgínia

Crédito: Divulgação

Todas as pessoas que me conhecem um pouco sabem como aprecio filmes antigos. Para isso minha explicação é muito simples: eles são cheios de verdades, mesmo quando buscam mentir. Não que os mais novos sejam de outra forma, mas os grandes filmes antigos, tiveram tempo de serem esquecidos e não foram porque sua ideologia, de alguma forma, ainda pesa.

Meu favorito “grande filme antigo” é de 1972, O Poderoso Chefão dirigido por Francis Ford Coppola. Trilogia indicada a uma dezena de Óscares, é considerada uma das obras mais relevantes da história do cinema. Pela estética, mas muito mais pelo enredo.

A vida dos Corleone é uma mistura de negócios, poder e família. Por ser uma estória passada a partir de 1945, uma parte nos Estados Unidos e outra na Itália, alguns dirão que é difícil fazer uma comparação justa com os nossos dias. Mas é aí, exatamente nesse ponto, que o meu “grande filme antigo” se torna ironicamente interessante.

Por questões estratégicas, os Corleone criavam alianças para enfraquecer oponentes, retribuíam e cobravam favores, apadrinhavam e fidelizavam, não descartavam a possibilidade do adversário de hoje ser o grande parceiro de amanhã, e mantiveram a família sempre dentro dos negócios.

A família, para Don Vito Corleone interpretado brilhantemente por Marlon Brando, estava em primeiro lugar. Era para a sua família o poder e os negócios. Cada membro tinha um cargo importante dentro da hierarquia estabelecida pelo grande-chefe-pai-avô-padrinho. Ninguém poderia questionar ou trair os negócios da família, com o risco de ser rapidamente excluído. O importante é manter a família ocupando cargos como peças fundamentais da engrenagem.

Os princípios defendidos pelos Corleone revelam aspectos muito semelhantes aos que vemos hoje em muitas instituições. Onde famílias inteiras formam o quadro de funcionários ou encabeçam as decisões. Cada membro com competência e formação para um cargo diferente. Daria um conto muito bonito se não fosse Nepotismo...

Segundo o Conselho Nacional de Justiça – CNJ, Nepotismo é o favorecimento dos vínculos de parentesco nas relações de trabalho ou emprego*. Trocando em miúdos, é quando nomeamos um parente para um cargo público passando por cima da questão de mérito e capacitação. Quando dizemos para sociedade que nosso primo-irmão-tio-avo-compadre deve exercer um cargo porque confiamos a ele decisões importantes e fundamentais independentemente da sua experiência e competência.      

Quantos cargos de confiança atribuídos por laços de sangue e sobrenome?! Quantas prefeituras foram tocadas carinhosamente pelo nepotismo?

As justificativas certamente serão muitas. Quando não se trata de cor, religião e gênero nós somos muito tolerantes. Assim como a estória dos Corleone, Nepotismo talvez seja ficção, ou como disse Eric Trump, em entrevista à revista Forbes, é “um fato da vida”.

A autora Júlia Virgínia é formada em Rádio e TV e tem mestrado em Cinema


Júlia Virgínia

Crédito: Divulgação

 
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