Artigos
Lights out
Júlia Virgínia

Crédito: Divulgação

Recentemente tive alguns questionamentos intrigantes acerca da morte. Existem dois tipos de morte?

A primeira é quando a vida abandona um corpo. Chamaremos aqui de "partir". A segunda é quando o outro deixa de existir ainda vivo, "desaparecer".

Na partida, a decomposição se faz depois do fato de perder a vida, seja isso acompanhada de doses homeopáticas de dor, ou seja, bruscamente como um piscar de olhos. Quem parte deixa para trás apenas sua matéria, um corpo sem a graça da existência, mas seu encanto perpetuará.

Alguns dirão “ele era tão ruim”, “aquela era tão egoísta”, e não faltarão argumentos para rotular um vilão. E vilão, final de novela “tem de morrer”.

Os mais otimistas encontrarão o que havia de melhor. O fato é que quem ama vai se agarrando a tudo que restar daquela pessoa fisicamente. Ninguém quer ouvir “ele estava sofrendo, descansou! ”, por mais logico que pareça, as pessoas que estão perdendo fisicamente alguém, querem o conforto de um abraço apertado. Elas já sabem intimamente que foram tocadas pelo egoísmo de quem quer o outro em qualquer condição.         

E o desparecido? Já aquele desaparecido, se torna só corpo, é só a matéria que lhe resta porque diferentemente do primeiro, já perdeu o encanto.

Durante o "Desaparecer", o sujeito se decompõe antes de não mais existir, antes que o sopro de vida o deixe. Não se sabe bem ao certo por onde (ou quando) esse processo vai começar, seja pela pequena decepção, pela falta de tempo, falta de amor, mudança de hábitos... A lista pode ser exaustiva. Ele se dissolve bem s  i  l  e  n  c   i  o  s  a  m  e  n   t  e . . . 

A pessoa fazia parte dos teus dias, algumas vezes até de pensamentos. Podia ser uma colega de trabalho, um antigo crush, um parceiro de banda, uma prima distante... Ops! A morte que faz desaparecer pode levar qualquer pessoa. Aliás, a morte física também!

Você acaba se dando conta de que esqueceu da existência daquela pessoa. No inicio em alguns casos pode ser posterior algum sentimento de magoa, que gerou distância... E por esta razão a distância engoliu o fino vinculo.         

O curioso é que ambas evocam um processo quase sempre de libertação. No partir, o ser amado se liberta do corpo que o limita, o desaparecer liberta você do outro que já não acrescenta, que sobra, ou que falta demasiadamente.  

Nos dois casos, o sentimento é a grande questão. No primeiro, a saudade, porque enfim esse nunca deixa de existir, embora não esteja vivo. Quanto mais o tempo passa, ele recente fica. Enquanto aquele que desaparece, Je suis desolée, quando dei por mim já não está.

A autora Júlia Virgínia é formada em Rádio e TV e tem mestrado em Cinema


Júlia Virgínia

Crédito: Divulgação

 
Mais Artigos
   9/5/2016 - Redescobrindo o Sul da Bahia
   10/4/2016 - Assassinato de mulheres, um crime contra a sociedade
   26/2/2016 - Firmemente, estamos ao lado da Ceplac
   9/2/2016 - A inveja, madrasta do sucesso, por Alcides Kruschewsky
   8/2/2016 - Coesão entre países lusófonos, por Bruno Peron
   27/1/2016 - A UFSB e os Complexos Integrados de Educação‏
   27/1/2016 - Porto Sul não é alternativa, é complemento
   23/1/2016 - Star Wars: revisitado, 40 anos depois
   23/1/2016 - A Coelba, a treva e a escuridão
   22/1/2016 - Saneamento básico de Itabuna: Coragem para mudar
   14/1/2016 - Ildásio Tavares
   11/1/2016 - O que falta para o Salobrinho avançar?
   7/1/2016 - Reforma agrária paralisada
   2/1/2016 - O Estatuto da Pessoa com Deficiência, por Júlio Gomes
   2/1/2016 - Parasitismo mórbido, por Bruno Peron
   31/12/2015 - Você tem planos para 2016?, por Júlio Gomes
   28/12/2015 - O Rosto do Brasil, por Júlio Gomes
   28/11/2015 - Luiz Gama, Mensageiro da Abolição
   23/11/2015 - (In)disciplina no Espaço Escolar: Desafios à Prática na Educação
   19/11/2015 - Um governo tirano, perverso e injusto



© Jornal Bahia Online | Todos os direitos reservados.   Layout