Ana Virgínia Santiago
O Ser Sábio que aprisionou os sonhos
Ana Virgínia Santiago

Crédito: Divulgação

Retorno do  meu labor.

Andei, observei, busquei o que precisava cuidar.

Caminhei cedinho pelas ruas de minha aldeia.

Olhei pessoas e  as desconheci. Tantas pessoas que são novas por aqui. Muitas estão reconstruindo o que acharam nos monturos e chegam com fome de construção. Algumas, estranhas e deprimentes pessoas que não olham a minha aldeia querida com olhos de afeto. Apenas querem!

Caminhei cedinho pelas ruas de minha aldeia buscando também as gentes de minha infância, as gentes do meu bem gostar.

Segui os meus passos guiados pelo coração na tentativa de reencontrar pessoas que ainda flutuam no meu mundo  construído por lembranças e me alimentam animicamente.

A tarde despedindo do sol devolve-me ao meu canto de  abrigo e armazenamento de energias pois preciso descansar.

Parei numa praça e  dei asas aos meus pensamentos que também queriam descansar.

Fiquei pensando, pensando, pensando.

 

De repente , eu a vi!  Ou a (re)vi?

Chegou como se estivesse nas nuvens ,arquitetando com a alma, uma maneira de unir idéias ao enlouquecido desejo de sobrevoar espaços nunca conhecidos.  Entendo perfeitamente esta levitação parida no imaginário, porque ,às vezes, para alimentar a alma exaurida  de dores e alegrias necessitamos de espaços a serem inaugurados...

Eu a vi! Ou a (re)vi?

Ela chegou com calma, sem alardes. E eu a observei... e todos ao meu redor a observaram.

Era intocável em seu silêncio pois nada a afetava diante do esplendor que adormecia em seu coração e que ninguém via porque era um sonho só seu.

Eu a vi e, de longe, a observei. Tinha um brilho especial, luz de estrela  e, como tal, inatingível em sua essência.

Mas ela lembrava-me alguém.

Eu a vi ou a (re)conheci?

Ela chegou no anoitecer ,numa noite parada e de tanto calor e a senti com esperança nos amanhãs.

Apareceu ali, de repente, como um ser estelar e falou como ninguém já tinha ouvido falar  cravando nas pessoas ali presentes as palavras contundentes e deixando uma essência especial , que, mais tarde, firmaria a sua chegada para sempre em nós.

Tudo porque ela era diferente!

Contudo quem era aquele ser que apareceu, iluminou  aquele espaço em que estávamos e deixou  no ar raios celestes acendendo a vontade de tantas vontades de quem lhe viu e lhe sentiu?

O que a fazia tão única?

Cogitávamos tantas respostas.

Seria uma estrela de outros céus que não o nosso?

Um anjo especial com a missão de anunciar melhoras e transformações vitais mudando a realidade tão perversa e violenta?

Ou seria uma menina que adormeceu e não viu a infância chegar por causa da maldade de seres apagados  transformando-a em desesperanças?

Quem era ela?

Eu, Faxineira de Ilusões, acostumada a lidar e conversar com pessoas, com cautela, aproximei-me dela  e fitando-a descobri !

Silente, escutei o que ela falava, o que eu queria saber e a ( re)conheci, então.

Aquela mulher era a criança que um dia chegou até mim , ensinou-me muitas coisas, inclusive a amar o saber. Chegou e  se foi tão rápido.

Uma criança que me ensinou a beleza do descobrir mundos descritos por seres especiais , verdadeiros alicerces para viver e eternas companhias em nossas solidões.

Uma criança? Um anjo? Um ser especial?

Passado tanto tempo de sua partida, hoje, retornando  ao meu canto de  abrigo e armazenamento de energias eu a vi e a (re)conheci!

Tinha ido embora fugindo para o seu mundo ,aprisionando o sonho, o mesmo sonho que um dia tinha dado a impressão que era para ser repartido. Pura ilusão! O que ela queria, na realidade, era me dar asas para voar.

Nunca  esqueci aquela criança que tinha a sabedoria no coração.

Aprendi com ela a acreditar nos sonhos, a ter certezas de novos mundos( nem sempre vistos), a entender a ludicidade do amor, a riqueza da amizade e a compreender o significado da sublimação

Nunca  a esqueci. Ela tinha o dom de fazer castelos de areia, transformá-los no ar, brincar com uma menina e logo depois virar guerreira que esconde seus segredos  para não serem descobertos com medo de ser mais magoada.

Hoje  a ouvi, encantada,  contando os seus devaneios sobre a lua com mensagens poéticas e metafóricas, e, eterna criança, expondo as suas marotas observações sobre o poder dos astros que arquitetam encontros e ou desencontros.

Hoje a revejo e a recordo quando infante. A alegria de viver, o mesmo olhar de humanidade para com as pessoas.  Um misto de sentimentos e emoções contraditórios porque ensinava a beleza da vida mas dava a impressão de um ser angustiado embebido de solidão.

Uma criança? Uma mulher? Um anjo?

Chegando ao meu  porto de descanso a relembro  como um paradoxo pois  parecia que ela tinha a certeza de Florbela Espanca: “mãos vazias sem as papoulas vitais”.

Mas da mesma forma que chegou anunciando boas novas, ela se foi deixando naquele espaço em que estávamos um perfume no ar  e  lacunas impossíveis de serem preenchidas.

E relembro os rostos de quem a ouviu na praça. Realizados e seguros. De bem com a vida. Tudo por causa dela.

Ela se foi ao encontro do etéreo, deixando a mesma impressão de bem estar como da outra vez...

 E eu retorno ao meu canto de  abrigo e armazenamento de energias, pois já anoitece. Guardar o que me conduz ao labor. Preciso descansar.

Sinto paz.

Ouvi aquela Mulher que um dia a conheci criança e alimentei a minha mente com desejos de renovação, certezas de esperanças e consciência de que a solidão pode ser transformada em solitude.

E  recordarei sempre dela com a sensação de mãos abertas dando liberdade às águas que necessitam ficar sob a proteção de conchas e , assim, transbordar. Mas que, em algum momento, devo aprisionar minhas quimeras , para não deixar de sonhar.

A autora Ana Virgínia Santiago é poeta, escritora e jornalista no sul da Bahia.


Ana Virgínia Santiago

Crédito: Divulgação

 
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